Tio

Deitou a carapinha loira no travesseiro ao lado. Verteu uma lágrima gorda. Era pra mãe. Uma senhora bonachona, que acrescentava muito açúcar no leite dos filhos e burlava os ditames da boa alimentação fritando mais um ovo para o maior deles.

Um vento zunia baixo no segundo andar do duplex.  O mobiliário recém-adquirido do quarto cheirava a novo. Os lençóis cor de pêssego estalavam em sua primeira muda.

Chora não, tio.

Foi só uma lágrima. Longa e bojuda. Podia ver o reflexo de sua sombra nela. O nariz vermelho escorreu. Silvia olhava o tio que olhava o teto.  Nele, o spot mal fixado tremelicava ao sabor do vento.

Cadeiras

Melhor empurrar esta para cá e deixar a mais velha na cabeceira. Lustrando esse espaldar ninguém vai se dar conta de que é conjurada, que uma velha modorrenta morreu nela. Se trocar o tecido do assento para um de bolinhas, de borboletinhas, de joaninhas, quem sabe, fica mais alegre, mais pra cima. Aí disfarça essa nódoa de sangue. É, mancha de sangue é dureza, sai com nada. E quando a poça é grande assi…, ram ram, melhor mudar de assunto. Tá vendo como entra luz aqui? É alegre, te disse. Põe uma cesta de frutas bem vistosa. E se puser um espelho, desses grandões, multiplica a fartura da mesa. É o que os chineses dizem… Ih, tá com o pé quebrado? Pera que tenho um calço, é só pôr uma caixinha de fósforo assim, arf arf, pera… croc croc, pronto. Ficou firme. Claro, é provisório. Depois muda. Depois acaba. Depois fica tudo bem. Te prometo. Pode acreditar.

Verão

Pôs uma coleira no ventilador e, por onde quer que fosse, fruía das rajadinhas de estimação.

Vingança de Odorica

Capítulo 1 — A praia

I

Odorica está por volta dos quarenta. Sorriso amarelo, covinhas, cabelos ruivos e ralos, a pele do braço molenga. Descobriu que o marido a traía. Alguém depositou um bilhete delator no vaso da samambaia. Isto a perturbou de maneira violenta, ferindo o brio, abalando a pouca autoestima e confirmando consciência de um projeto de vida falido.

II

Depois da discussão truncada   não conseguia completar uma só frase  , sentiu-se idiota quando de relance se deparou com o porta-retratos de moldura descascada, cuja fotografia de cores desbotadas registrara os dois, marido e mulher, de perfil, os queixos apontados para cima, os semblantes emocionados no altar. Um noivo sem escrúpulos. Um crápula. Uma noiva estúpida. Uma pata.

III

Decidiu viajar. Antes resolveu passar a tarde no salão. Retocou as raízes dos cabelos, mudou o desenho da sobrancelha para um formato invertido algo da letra V. Pintou as unhas dos pés e das mãos de vermelho. Depois da estrada, a imagem obtusa no retrovisor, estacionou num pico, levantou os óculos escuros e deitou os olhos no mar. Ventava. O peito batia lento. Na pousada barata, depois de refletir um pouco, escolheu o quarto número oito; todos os quartos estavam vagos no meio de abril. 

IV

Fim de tarde, Odorica resolveu ficar no quarto, descansar da viagem. Não ligou a televisão, nem o rádio enferrujado disposto na mesinha de madeira, nem mesmo acendeu a luz. Por detrás das janelas, o vidro embaçado pela maresia, acompanhou o esmaecer das cores, com os olhos semicerrados que ainda não haviam chorado, e que, de maneira estranha, emanavam um brilho seco, felino emboscado, ave de rapina. Permaneceu imóvel por um longo tempo. Seu rosto não se distinguia mais na escuridão da noite nova, resolveu tirar as roupas, descalçar as sandálias, tomar um comprimido, dormir.   

V

Despertou com o grasnar de uma ave exótica. Sentia-se bem, embora o efeito do comprimido secasse sua garganta e lhe provocasse um engulho oco. Olhou-se no espelho redondo do banheiro, os lábios cinza. As maçãs do rosto ainda conservavam a mesma feição do retrato de noiva, o pescoço engelhado em dobras profundas. Os seios despidos tombavam no tronco ainda com graça e rigidez. Vaga, lembrou-se das razões que a levaram àquela pousada, e, como se todo o passado azedasse a boca, resolveu escovar os dentes e depois sorrir com todos eles refilados e amarelecidos para o espelho. Passou o protetor solar no corpo, e nele reconheceu um frisson, que animou o início do dia.

VI

Na mesa do café da manhã, dispunham-se, sob moscas gordas, bananas enegrecidas, fatias desidratadas de melões, pãezinhos duros, uma jarra de suco de goiaba, uma jarra de suco de laranja, cobertas por uma espécie de renda de acrílico, fatias brilhantes de queijo branco, uma garrafa térmica cujo adesivo escrito à mão identificava “café” e outra, disposta ao lado e assinalada com a mesma letra trêmula, “café com leite”. Serviu-se de uma fatia de queijo e de uma xícara de café ralo. Quase cuspiu quando sentiu o exagero de açúcar. Sorriu para a funcionária mirrada que por ali passava e, não recebendo retribuição, levantou-se com o bolsão a tiracolo, os motivos de tucano, e partiu em direção à praia. No caminho de terra vermelha e batida, reparou nos arames farpados enferrujados que delimitavam as cercanias e moldavam a estradinha até onde começava a despontar o mar.

VII

O sol ia calmo, quase branco. Odorica ouvia o bramido do oceano, o zumzum de vespas ocasionais e os resfolegar das sandálias na terra morna. Shlept Shlept. A visão mergulhava nos pés, as unhas vermelhas, que entravam e saíam do quadro. Ignorava o mar que se apresentava e crescia para cima e para os lados. Seguia cabisbaixa. Ela não estava propriamente triste, mas fruía um alheamento prazeroso, infantil, que dispensava palavras soltas, frases inteiras, imagens nítidas, lembranças. Não era nada, nem mesmo um ente vivo. Eram simplesmente dois pés brancos, ressequidos e pintados de vermelho que preenchiam a totalidade e o significado da vida. Entravam e saíam do quadro repetidas vezes. Até que encontraram a areia branca.

VIII

Odorica sentiu-se alegre ao perceber-se só. Rodou a cabeça por todos os lados e não viu ninguém. Levantou os braços, como se comemorasse uma conquista. O mar adiante, verde, chacoalhava contido. A extensão de areia seca, a extensão de areia molhada. O azul do céu, azul, azul. Só um rastro delgado e falhado de avião. Branco esmaecido, cinza. Depois começou a achar esquisito. Tudo bem que não estivesse no período de férias, mas nenhuma viva alma? Nem mesmo um siri, um cachorro perdido, um cavalo xucro para compor a paisagem? Parou de questionar, como que ordenando-se com autoridade — obedecia às próprias leis com subserviência —, e decidiu deitar-se sob a sombra do guarda-sol que trouxe na bolsa. Abriu-o e viu reluzir as cores do desenho da lona. Verde, marrom, laranja, rosa, roxo. Um pôr do sol havaiano, emplastrado, ornado de coqueiros tortos. Ao fundo, um mar cor de rosa, de plástico, emanava cintilante a mais pura paz.

IX

Sentiu preguiça do mar, de levantar. Deitou sobre a toalha felpuda que recendia ao cheiro do amaciante preferido. O cheiro das manhãs felizes, quando tudo dentro de casa parecia funcionar. O café pronto, o pão amanteigado, o desodorante do marido. O cheiro do ombro do marido era a mistura do desodorante com o amaciante. O cheiro do sexo do marido era a mistura do esperma com o amaciante dos lençóis, das calças, da cueca. Ele estava partindo para o trabalho, as camisas bem passadas, a barba feita, os olhos ainda inchados de sono. Ela deitava o rosto sobre os ombros dele e lá ficava até que ele a empurrasse docemente alegando atraso. Estou atrasado, Odorica. Hoje tenho uma reunião importantíssima, ainda preciso organizar umas papeladas. Passa essa bolacha, passa essa banana, vou comendo no carro. Tchau, Odorica. Bom dia para você, amor.

X

O sol já descia sobre o mar como no guarda-sol. Mas ali o céu se fazia estranhamente azul escuro, as pinceladas alaranjadas, antecipando a noite com sobriedade e mistério. Odorica permanecia seca, deitada sobre a toalha, imóvel. A expressão de estátua, transe velado. Brilhava o óleo natural do rosto. Calma. Antiga. O vento frio da noite nascia, anunciando desconforto. Levantou estremecida. E partiu dali.

Capítulo 2 – O banho 

I

Seguiu a trilha de volta, escurecida. Cada passo suscitava medo, dúvida. Afinal, por ali devia haver cobras, escorpiões, tarântulas. Alguma cova recoberta de folhagens secas, ardil de onça. Ela morreria com areia na boca. Os vermes gordinhos da sua carne antiga. Ela veria o pé diminuir, perder as unhas, o corpo dos dedos, arroxear, morrer. Ela gritaria, Marido! Marido! Ela chamaria o Velho da Recepção, a Funcionária Mirrada. Todos surdos. Ninguém estenderia a mão. 

II

Divisou as lâmpadas de tungstênio da pousada. Penduradas nos bocais por fios velhos, empoeirados. As luzes falhavam dançando ao sabor do vento. Respirou fundo. Esfregou os pés sujos no capacho imundo da entrada. Sorriu para o velho da recepção, que, sequer um esgar, disse “…noite”, a boca murcha. Pé direito alto, a cor azulada, desigual, nos cantos mofada, à parede pendurado o crucifixo. Benzeu-se sem prática, para o lado errado. Entrou no quarto, limpo e perfumado com desinfetante de eucalipto.  

III

O corpo suado coçava. Grãos de areia na xoxota, nas orelhas, nos bicos dos peitos. Fleuma irritadiça. Preguiça de tomar banho. De descobrir o pinga-pinga da ducha. Quem sabe, sortuda, não tomar uns choquinhos e apanhar mais da vida? Abriu a nécessaire, o xampu aberto. O liquido viscoso, perolado, excessivamente cheiroso. Aloe Vera. Para cabelos tingidos e maltratados. Hidratação profunda, reposição da queratina, recuperação dos fios quebradiços, do brilho natural dos cabelos. O liquido viscoso banhando as cerdas macias da escova de dente. O liquido perolado infiltrado nas caixinhas delicadas de maquiagem. Importada. Lembrancinha da última viagem da Prima Nariguda. O liquido excessivamente cheiroso embrenhado nos obês, nos cotonetes, nas pinças, no curvex, nos grampos, nas lixas de unhas, nas amostras grátis de perfume francês. Embrenhado. Como o sêmen do Marido, na calcinha, no ventre, nas coxas, no lençol.

Capítulo 3 – Pavão 

I

Acordou doída. Odorica se contorce na cama e vira para o lado. Um susto lhe estremece o corpo semidesperto: um pavão de penas erguidas observa Odorica do parapeito da janela. Os olhinhos do pavão lutam contra os olhos dela. O bicho a vence. Ela foge arfando quarto afora, vestida de camisola.

II

O Velho da Recepção e a Funcionária Mirrada mal percebem o vulto branco que rasga a entrada da pousada. Tudo permanece igual. O Velho coça o nariz e a Funcionária olha entediada para a cruz pendurada na parede e se persigna.

Capítulo 4 – Odorica foi pro espaço 

I

Odorica corre pelo caminho de terra batida como se guiada por uma força atávica: ela corre porque tem que correr. Já até se esqueceu do pavão. Odorica corre e não pensa nada. Os fios secos dos cabelos vermelhos ricocheteiam suas maçãs ao ponto delas sangrarem em minúsculos talhos.

II

Odorica encontra o mar. O mar encontra Odorica. Suspiram. Com os pés fincados na areia Odorica ergue os braços e depois os deixa caírem sobre o rosto ensanguentado. Limpa as faces com as palmas das mãos secas. (O esmalte vermelho começa a descascar e se confunde com o sangue.)

III

Odorica cantarola uma canção de ninar enquanto caminha convicta em direção ao mar. Adiante vê-se um amontoado de pedras que adentram na água. O mar rebate forte nas pedras provocando uma espécie de bruma espumosa no céu. Sereno, eu caio, eu caio. Sereno deixa cair. Sereno da madrugada não deixa meu bem dormir. 

IV

Antes de entrar no mar Odorica tira a calcinha. A camisola permanece no corpo. Odorica respira fundo e se persigna sentindo a água morna e revolta acariciar seus pés. Odorica procura uma pedra. Acomoda-se nela. Abre as pernas e levanta o rosto para o céu.

V

O mar bate e rebate entre as coxas de Odorica. A xoxota incha: Odorica sorri.

Saudação

Dá cá um abraço. Vou te enrolar em mil fios e te pôr de ponta-cabeça antes de te sugar os capilares, as veias e as artérias feito canudinhos de milk shake. 

Amália Rodrigues

O som dos carros deslizando sobre o asfalto molhado. A cama desfeita, sobre ela, um saco de carne mole — Cassandra.

Um avião decola na pista. Dois aviões decolam na pista. Três aviões decolam na pista. (Os cantos das unhas mordiscados, estalidos de juntas incessantes, ranhuras de bicho sobre a placa de metal branco da máquina de lavar.)

Nunca gostei do Horácio, aqueles membros curtos me afligem.

A cúpula do abajur está trincada. Foi adquirida há exatos cinco anos, quando passeava debaixo do Minhocão. Cheiro de mijo acre e um vapor de morte misturado às baforadas dos numerosos ônibus. Não estava sozinha. Também não está sozinha.

Quando eu era caveira, caveira, caveirinha. Eu era assim. Eu era assim.

Jogou um punhado de orégano no chão para ver se virava pizza. Cruzou as pernas oblongas imitando tesoura. Fungou. Já era quase dez da noite. Ingeriu grãos, água. Estalou os dedos a esmo. Das mãos. Dos pés. Fungou.

A moça da televisão resolveu ter um filho sem anestesia. Ainda por cima chamou o filho de cinco anos para ver o parto. Fez tanta força que fez cocô no lençol.

O dia em que um mendigo coberto por uma manta pútrida avançou contra ela; o Batman. Ela segurava uma criança, mas o primeiro impulso foi de se proteger — o filho não era o dela. Tirou a culpa quando lembrou a lógica das máscaras de oxigênio do avião.

O mendigo não fez nada, nem mesmo buu. Fugiu da rota, cambaleando e cantarolando uma música antiga.

Esses moços, pobres moços, ah, se soubessem o que eu sei.

Chove. O carro passa. O avião traça o céu. O estômago ruge. Cassandra funga e pede uma pizza:

Portuguesa. Capricha no fado, por favor.


Em memória de Íris

Garatujas de caneta Bic encaracoladas nas revistas de fofocas. Demi Moore, Vera Fischer, Catherine Deneuve. Todas de olhos riscados com afinco, ao ponto de um rasgo irromper no outro lado da página — o horóscopo e o signo de leão circulado pelo traço trêmulo e azul.

Faz calor o tempo inteiro. Manhã, tarde e noite. E a se o vento canta entre as brechas das janelas empoeiradas, é só uma ideia vaga de que a vida pode ficar melhor, arejada. Mas não fica. Fica nunca.

As roupas comidas por baratas, as francesinhas. Francês é aquela língua que enrola a língua? O vidro de xampu secou, mas guarda porque é bonito, colorido, até dourado tem. E o calor? Bafo, umidade, poeira. Por sobre os lábios pálidos, bolinhas de suor brotam como rosas.

Uma das gotas pinga em uma atriz loira; a água transfigura o rosto da princesa americana. Ela agora está mais pra bruxa. Puxa! Que calor. Não tem ventilador. Ela até pensa em trazer de casa, comprar outro no crediário, consertar o quebrado do traste do Jofre.

Mas Íris não tem, Íris não tem, Íris não tem. E as damas de Hollywood não estão mesmo nem aí pra ela. (Mais um suorzinho pinga na cara pintada.)

Risca, risca, risca o nome Íris até se convencer de que ela existe. Existe? Existe, não. Se existisse, montaria o ventilador e sairia voando janela empoeirada afora, como uma heroína elástica.

 

Monja

Monja anda mal. Monja anda com medo, engulhando, cabisbaixa. Monja rã sonha uma briga feia com a tia, ovos de pelicano gordurentos estourados no assoalho. Monja não sabe bem o que quer, Monja quer brisa no rosto. Monja é gente? Monja é mulher? Monja útero seco, passado seco, olho seco de tanto não chorar. Tour de force para viver, dia após dia, pé ante pé: cuspe de pasta de dente na pia.

(Está chovendo granizo e os rins estão entupidos. Abscesso, prurido, inflamação. São quatro horas da tarde e o dia escureceu.)

Monja cantarola com voz de garça na cozinha, a água borbulha na chaleira. Na despensa, a farinha se desfaz na tromba de um caruncho mau. O moletom encardido seca no varal.

Monja senta na cadeira de rodinhas, profissional. Gira, gira, até ficar tonta, até fazer de conta que é a própria Terra. Apesar de tudo e de todos — os feitiços injustos, os sequestros, as trovoadas, as injúrias profanas, a queda de um anjo bom —, Monja é Monja e respira: uma, duas, três, inúmeras e sentidas vezes.

Acomodação em móveis


Ozma, essa obsessiva por arrumação. Catalogou tudo por ordem sentimental, a mais difícil das ordens. A louça chinesa da avó teve que ficar debaixo da coleção da enciclopédia Barsa. O resultado foi uma explosão de cacarecos de louça para todos os lados. Ozma não cansou. Equilibrou a licoreira na cabeça do jacaré de pelúcia encardido — qualquer vento mais altivo e tchau, licoreira. Uma tevê dessas de videocassete acoplado exibe em looping o primeiro ataque dos pássaros na senhorita Daniels e um busto de cavalo negro guarda a prateleira número sete. Ozma reclama incessantemente de dor nas costas, mas não toma uma aspirina e cala o bico de uma vez. Gosta mesmo de reclamar. A coleção de diário floridos, toda escrita em códigos, fica escondida na gaveta. Nem ela, Ozma, sabe mais decifrar as confissões. Só tem uma vaga impressão de que a letra C é correspondente a uma meia-lua.  Cabides de acrílico esperam a casaca do príncipe e um gato pulguento ressona aninhado no lençol de estimação. Ozma, mesmo com dor nas costas, escala todas as 37 prateleiras, conferindo item por item na sua particular ordem sentimental. Fitas adesivas bolorentas, tampas de caneta mordidas, prescrições invalidadas do oftalmologista, entradas de cinema cuja inscrição do filme, sala e horário o tempo apagou. Uma nota zangada de um professor de geografia tratando-a como incapaz e indolente e, ainda, um ramo de papoula sequinha que a pequena Edna lhe deu. Ozma cansa. Deita a cabeça no pouco espaço de prateleira que lhe resta e sonha com uma ventania ultrajante que lhe deixa sem posses e nuazinha da silva.

sofá, tapete

Ficamos aqui, debaixo do cobertor, eu e você, de olhos grandes. Respira alto, entrelaça os pés. Faz frio e seu corpo me aquece. A tevê está ligada, escalamos o sofá da sala, um documentário sobre seres humanos especiais, cujo defeito numa glândula do hipotálamo provoca gigantismo contínuo, me espanta com uma declaração cruel: “Rachel nunca vai parar de crescer”. Você vai e volta num alento tímido. Faz frio. Uma cerração quase imperceptível toma a noite e é como um retrato que só eu posso ver. Um pequeno monóculo de plástico.  Nós dois, sob o cobertor, esparramados geometricamente sobre o sofá — elegante e a postos sobre o tapete. A tevê chia, gigantes desengonçados passeiam tristes lá fora. Você está aí, de olhos grandes, pequeno. Como é bom. Você respira.