Quando o cisne não sai como o sonhado

Juca imagina um cisne dourado. Juca desenha na cabeça cada traço do cisne dourado, as dobras curvas, a penugem rutilante, o bico elegante, o deslizar no lago. No fundo, um sol que parte. Juca deita a cabeça no travesseiro sonhando o cisne dourado que singra o laguinho da banheira. Juca inventa um canto do cisne que faz assim: hiiggnnn hiiiignnnnn. Juca inventa a sombra de uma árvore por sobre as pequenas ondinhas circulares que se formam com o trajeto do cisne de ouro e as folhas avermelhadas que vão morrer no lago. Juca inventa um solo limoso de lago. Juca inventa um peixe pesado que nada circunspecto debaixo do cisne. Na beira do lago de banheira, uma adolescente solitária balança os pés. Ela coça o cotovelo picado de mosquito. O cisne passa diante da moça — que então abotoa o casaco porque sente um vento frio. A moça está absorta em pensamentos disformes e não se assusta com o cisne de ouro. Ali tem muitos deles. O cisne dourado de Juca é só mais um. O cisne passa pela adolescente de pés tamborilantes e o peixe circunspecto ganha a superfície, abre uma bocarra repleta de molares e engole o cisne dourado, engole a moça pensativa — começando pelos pés —, engole a árvore rubra, engole o sol desvanecido, engole toda a água do laguinho que desce em pequenas ondinhas pelo ralo. Resignado, Juca aceita o peixe, mas ainda escuta o canto do cisne que faz assim: hiiignnn hiiiignnnnn.
Desculpa
Pai, cê não sabe o que me aconteceu ontem. Eu estava deitada na cama, brincando no computador, bebendo coca-cola. Sem querer, derrubei o copo inteiro no colchão. O copo estava cheio. Tirei o lençol, as fronhas, tentei tirar o excesso. Mas não teve jeito. O colchão ficou ensopado. Grudento. Doce. Não teve jeito. Tive que dormir com minha mãe.

Dos sustos

Mar frio
Cinza. Meu olhar suplicante, minha vontade por um fio. Dois amigos, quatro mãos. Primeiro molha a nuca, depois os pulsos, por trás dos joelhos. Pé ante pé. Uma vastidão. O céu não encontrou o mar ali. Um escaldante, outro frio. Não vou conseguir. Não vou dar conta. É muito pra mim. Sigo avançando, o coração pulsando o contrário, a cabeça sucumbindo. Como me chamo? Em que ponto do mundo estou? Acabou? A morte vem por debaixo. A vida enrosca nas canelas. O gelo é o cabelo dela? Yemanjá? Maria Mãe de Deus? Vou cedendo. O estômago vertendo. O útero miúdo e vazio. Os dedos já são corais. O que passou não volta mais. Mergulho em nome do amor dos meus amigos. Amor.
Granizo
Acometida, diante de uma subida. Aflita, diante de um labirinto. Perdida, diante de ruas, cujos nomes estranhos não me apontam para nenhum lugar, uma chuva de granizo veio para me abundar.
Cassandra e Gilberto
Cassandra é rede, Gilberto é corpo. Gilberto deita, cochila, espreguiça. E vai embora. Cassandra fica só, esparramada no chão, as varandas abertas, pensando: Fingir amor é sadismo.

Feitiçaria

A moça com planta no sexo se armou de uma tesoura e zupt!, cortou os as folhas do monte de Vênus, dos grandes lábios, do ânus; passou para as unhas, talhou todas bem curtas; pulou para o cabelo, tosou mecha por mecha, até ficar careca; desceu para as sobrancelhas cortando bem rente os pelos, até que restassem poucos, desordenados. Tomou um banho, saiu molhada pela casa, alcançou o quarto e deitou na cama. Lá dormiu por seis meses. Quando acordou, estava peluda de novo. No sexo, havia uma flor.
Chatillon— Montrouge
I
Foi uma surpresa sair de casa e me deparar com as plantas cristalizadas como jujubas. Assim como as folhas, as flores apresentavam uma tênue camada de orvalho congelado por sobre seus delicados pistilos. Jamais havia visto algo parecido — na minha terra as plantas suam. Foi de fato uma surpresa tão boa que esqueci de imediato o cuspe na cara recém-recebido.
II
Carrego seu peso comigo. Envergo. A cabeça coça. Carrego seu peso comigo e atravesso a multidão de revoltos. Uma ilhota pedregosa no meio do caminho. Um gnu. Uma poça de lama negra. Você está abraçado a meu corpo, te sustento fazendo força, espremendo os dentes. Sigo decidida, solene. Seu corpo pesa. A cabeça coça. Com o que me resta das mãos, coço a cabeça. Dela se despendem flocos de caspa amarelecidos.

Eu sou essa
“Eu sou uma gaivota… Não, não é isso.
Eu sou uma atriz.”
Nina, n’A gaivota de Tchéckov

Revista aberta, esparramadas pelo piso gelado, nós sonhamos juntas. A revista é velha e algumas páginas estão manchadas de café e apresentam rasgos nos cantos. A moça da propaganda de pasta de dente sorri fartamente e um lampejo do canino direito parece desenhado à mão.
Eu sou essa!
Quem diz primeiro é. Avanço vitoriosa para a próxima página cuja amazona empertigada monta elegante um cavalo robusto. O céu está repleto de nuvens brancas e redondas. A grama sob o pé do cavalo é verde e coberta de orvalho. Deve ser de manhã. Custo a decidir se sou ou não sou porque lembro que a última vez que montei um cavalo foi traumática. Era um pangaré mole e se arrastava pela margem da praia. A maré enchia e o pangaré empacava e fazia cocô e relinchava à revelia das minhas açoitadas. Cavalo todo lanhando aquele. Não havia nada de grama, nem nuvens gordinhas nem essa elegância que a gente vê aí. O céu estava limpo, o sol a pino e minha testa suava — acima da boca também. O mar crescia e nada do pangaré se mexer. Gritei. Quem me salvou foi o cuidador de cavalos atarracado e suando em bicas. Devolvi o pangaré e paguei cinco reais da minha mesada. Quando desci para a areia, mal reconheci meus passos; meu corpo andou engraçado, como se eu ainda tivesse um lombo duro e morno entre as pernas.
Eu sou essa!
Tudo bem, pode ser essa, até porque as calças que ela usa são horríveis. Posto isto, ganhou o direito de passar a página. Uma mãe diligente segura o bebê no colo, ambos com um semblante plácido. Estão acomodados numa poltrona de avião. Possivelmente uma aeronave 747 novinha em folha. Da janela vemos uma ponta do Pão de Açúcar. O sol também é azul, de nuvens gordas e inofensivas. Não dá para saber se elas estão partindo ou desembarcando no Rio de Janeiro. Mas o bebê não chora com a pressão que afugenta os ouvidos. A mãe não tem vontade de ir ao toalete e não se desespera por não ter com quem deixar a criança. Vê-se uma perna de aeromoça que se aproxima. Está tudo muito bem. Mas estou confusa. Não sei se quero ser a mãe tranquila, o bebê satisfeito, o mesmo uma parte da aeromoça que se anuncia. Estudei a fundo, acurei a vista e vi uma gaivota plainando próximo à ponta do Pão de Açúcar. Hesitei, apontei e, por fim, bradei:
Eu sou essa!
Protestou efusivamente. Gaivota não vale. Gaivota não é gente.
O Cerotão
O Cerotão é o apelido da Bruna. Durante a cantoria do hino, a sala inteira deixa de olhar para a bandeira e se põe a fitar as dobras encardidas do pescoço da menina. O escrutínio da professora tem ares de reprovação, enquanto Bruna fica lá: mão no peito, olhar fixo na ponta do mastro, as palavras difíceis cantaroladas e a surrada bandeira hasteada. O sol está a pino e um suorzinho poluído avança nas depressões do pescoço de Cerotão. Pedroca não perde um movimento. Roberta faz cara de engulho. Patrícia ri de nervoso. E a tia Denise cochicha enojada:
Mas essa menina não tem mãe?

Tipos de cama

Cama de N.
É uma cama de casal com pernas bambas, feita de madeira compensada imitando mogno. O lençol tem uma manchinha de água sanitária e as fronhas nunca combinam entre si. O edredom está sempre desgrenhado — se você estudar a fundo a superfície, encontrará nódoas das mais diversas, nos quesitos cor e forma. Misturados aos restos de pele microscópicos, você pode divisar longos pelos de gato branco e um dicionário velho. Acima da cama, fica a janela que dá para a quadra esportiva de uma escola. É possível ouvir os gritos dos meninos quando alguém faz um gol.
Cama de B.
É estilo box, e um pé tá quebrado. Deve ser de tanto B. jogar videogame em cima. O lençol sempre está solto, revelando o tecido rugoso do colchão. Binóculo, chiclete velho, pedaço de corda, mangá, biografia dos Beatles, meia velha sem par, um receptáculo de neve artificial, pedaço de um controle remoto há muito sem uso. Tudo jogado e embrenhado em camadas de lençol e edredom. Como B. sempre está cantando uma música, e acompanhando a cadência com o pé tamanho 42, a cama produz pequenos estrondos ritmados e provoca terremotos de escala mediana em quem está sobre ela. Apesar de toda geografia áspera e clima imprevisível, a cama de B. é o melhor lugar do mundo.
Cama de A.
A cama de A. é um improviso. Um colchonete magro fica entre a verdadeira cama e o guarda-roupa. O motivo de fugir da verdadeira cama de A. é que A. é inquieto dormindo, portanto a verdadeira cama de A. não é lugar tranquilo para o descanso. Só é indicada para contar piada, cantar música tropicalista brasileira e gargalhar balançando as pernas para cima.
Cama de C.
C. dorme como um anjinho. Reclamou da dor de cabeça excruciante, deitou, fechou os olhos pretos e dormiu. A cama de C. acolhe todo tipo de dor.
Cama de M.
Dá para a janela que dá para o mar. O vento silva como um apito entre as esquadrias. É como se o mar chamasse. Dá pra sentir o salgado na ponta da língua. O lençóis sãos finos, a cama é estreita e o cachorro Jimmy ressona ao lado encolhidinho numa caixa de papelão. No meio do sono, a impressão que dá é que se é embalado pelas ondas mornas e gordas. A cama de M. é perfeita para sonhar com sereias.
Cama de M.
Um husky siberiano habita no quintal ao lado, e faz um mormaço de fritar ovo. Da janela, sobre a cama de M., se ouve os movimentos do husky, que arfa de calor. É necessário um ventilador na velocidade máxima — a terra é quente e tem nome de aldeia indígena — e um cheiro de lençol novo para que se consiga dormir. A aparição de estranhos também incomoda o sono, uma vez que o husky late indefinidamente para qualquer espécie de invasor. O que salva a difícil cama de M. é o amor de M. E a santidade de M. E a delicadeza de M. que dorme de cabelos brancos, como quem nunca fez mal a ninguém.
Tio

Deitou a carapinha loira no travesseiro ao lado. Verteu uma lágrima gorda. Era pra mãe. Uma senhora bonachona, que acrescentava muito açúcar no leite dos filhos e burlava os ditames da boa alimentação fritando mais um ovo para o maior deles.
Um vento zunia baixo no segundo andar do duplex. O mobiliário recém-adquirido do quarto cheirava a novo. Os lençóis cor de pêssego estalavam em sua primeira muda.
Chora não, tio.
Foi só uma lágrima. Longa e bojuda. Podia ver o reflexo de sua sombra nela. O nariz vermelho escorreu. Silvia olhava o tio que olhava o teto. Nele, o spot mal fixado tremelicava ao sabor do vento.