February 2012
1 post
Verão
Pôs uma coleira no ventilador e, por onde quer que fosse, fruía das rajadinhas de estimação.
January 2012
3 posts
Vingança de Odorica
Capítulo 1 — A praia
I
Odorica está por volta dos quarenta. Sorriso amarelo, covinhas, cabelos ruivos e ralos, a pele do braço molenga. Descobriu que o marido a traía. Alguém depositou um bilhete delator no vaso da samambaia. Isto a perturbou de maneira violenta, ferindo o brio, abalando a pouca autoestima e confirmando consciência de um projeto de vida falido.
II
Depois da discussão...
Saudação
Dá cá um abraço. Vou te enrolar em mil fios e te pôr de ponta-cabeça antes de te sugar os capilares, as veias e as artérias feito canudinhos de milk shake.
Amália Rodrigues
O som dos carros deslizando sobre o asfalto molhado. A cama desfeita, sobre ela, um saco de carne mole — Cassandra.
Um avião decola na pista. Dois aviões decolam na pista. Três aviões decolam na pista. (Os cantos das unhas mordiscados, estalidos de juntas incessantes, ranhuras de bicho sobre a placa de metal branco da máquina de lavar.)
Nunca gostei do Horácio, aqueles membros curtos me afligem.
A...
December 2011
1 post
Em memória de Íris
Garatujas de caneta Bic encaracoladas nas revistas de fofocas. Demi Moore, Vera Fischer, Catherine Deneuve. Todas de olhos riscados com afinco, ao ponto de um rasgo irromper no outro lado da página — o horóscopo e o signo de leão circulado pelo traço trêmulo e azul.
Faz calor o tempo inteiro. Manhã, tarde e noite. E a se o vento canta entre as brechas das janelas empoeiradas, é só uma ideia vaga...
November 2011
1 post
Monja
Monja anda mal. Monja anda com medo, engulhando, cabisbaixa. Monja rã sonha uma briga feia com a tia, ovos de pelicano gordurentos estourados no assoalho. Monja não sabe bem o que quer, Monja quer brisa no rosto. Monja é gente? Monja é mulher? Monja útero seco, passado seco, olho seco de tanto não chorar. Tour de force para viver, dia após dia, pé ante pé: cuspe de pasta de dente na pia.
(Está...
October 2011
1 post
Acomodação em móveis
Ozma, essa obsessiva por arrumação. Catalogou tudo por ordem sentimental, a mais difícil das ordens. A louça chinesa da avó teve que ficar debaixo da coleção da enciclopédia Barsa. O resultado foi uma explosão de cacarecos de louça para todos os lados. Ozma não cansou. Equilibrou a licoreira na cabeça do jacaré de pelúcia encardido — qualquer vento mais altivo e tchau, licoreira. Uma tevê dessas...
June 2011
1 post
sofá, tapete
Ficamos aqui, debaixo do cobertor, eu e você, de olhos grandes. Respira alto, entrelaça os pés. Faz frio e seu corpo me aquece. A tevê está ligada, escalamos o sofá da sala, um documentário sobre seres humanos especiais, cujo defeito numa glândula do hipotálamo provoca gigantismo contínuo, me espanta com uma declaração cruel: “Rachel nunca vai parar de crescer”. Você vai e volta num alento tímido....
May 2011
1 post
Mulher abraçando uma samambaia
Clair, a planta está tomada por pontos de mofo branco. São pequenas gotas de pelúcia. Clair, acho que a melhor coisa que fazemos é jogá-la no saco de lixo.
— Mas ela está viva!
De que importa, Clair? Ela está viva e sofrendo. Viva e comendo o estrume que o diabo amassou. É tão claro que estamos praticando uma forma de tortura ao mantê-la viva assim, moribunda, fracota. Além do quê, ela está...
April 2011
1 post
Jorja, tu é fogo!
O Euclides me disse que era uma péssima ideia brigar com a Jorja. Amava muito a mulher, mas quando havia qualquer desentendimento sua retaliação era jogo baixo. Uma palavra deslocada, um favor negado, uma perigosa troca de nomes ou datas e Jorja abandonava a gilete. Deixava os grossos pelos do rosto aparentes e ainda escanhoava a pelugem farta no formato de um cavanhaque latino. Seguia para o...
March 2011
4 posts