Acomodação em móveis

Ozma, essa obsessiva por arrumação. Catalogou tudo por ordem sentimental, a mais difícil das ordens. A louça chinesa da avó teve que ficar debaixo da coleção da enciclopédia Barsa. O resultado foi uma explosão de cacarecos de louça para todos os lados. Ozma não cansou. Equilibrou a licoreira na cabeça do jacaré de pelúcia encardido — qualquer vento mais altivo e tchau, licoreira. Uma tevê dessas de videocassete acoplado exibe em looping o primeiro ataque dos pássaros na senhorita Daniels e um busto de cavalo negro guarda a prateleira número sete. Ozma reclama incessantemente de dor nas costas, mas não toma uma aspirina e cala o bico de uma vez. Gosta mesmo de reclamar. A coleção de diário floridos, toda escrita em códigos, fica escondida na gaveta. Nem ela, Ozma, sabe mais decifrar as confissões. Só tem uma vaga impressão de que a letra C é correspondente a uma meia-lua. Cabides de acrílico esperam a casaca do príncipe e um gato pulguento ressona aninhado no lençol de estimação. Ozma, mesmo com dor nas costas, escala todas as 37 prateleiras, conferindo item por item na sua particular ordem sentimental. Fitas adesivas bolorentas, tampas de caneta mordidas, prescrições invalidadas do oftalmologista, entradas de cinema cuja inscrição do filme, sala e horário o tempo apagou. Uma nota zangada de um professor de geografia tratando-a como incapaz e indolente e, ainda, um ramo de papoula sequinha que a pequena Edna lhe deu. Ozma cansa. Deita a cabeça no pouco espaço de prateleira que lhe resta e sonha com uma ventania ultrajante que lhe deixa sem posses e nuazinha da silva.