Monja
Monja anda mal. Monja anda com medo, engulhando, cabisbaixa. Monja rã sonha uma briga feia com a tia, ovos de pelicano gordurentos estourados no assoalho. Monja não sabe bem o que quer, Monja quer brisa no rosto. Monja é gente? Monja é mulher? Monja útero seco, passado seco, olho seco de tanto não chorar. Tour de force para viver, dia após dia, pé ante pé: cuspe de pasta de dente na pia.
(Está chovendo granizo e os rins estão entupidos. Abscesso, prurido, inflamação. São quatro horas da tarde e o dia escureceu.)
Monja cantarola com voz de garça na cozinha, a água borbulha na chaleira. Na despensa, a farinha se desfaz na tromba de um caruncho mau. O moletom encardido seca no varal.
Monja senta na cadeira de rodinhas, profissional. Gira, gira, até ficar tonta, até fazer de conta que é a própria Terra. Apesar de tudo e de todos — os feitiços injustos, os sequestros, as trovoadas, as injúrias profanas, a queda de um anjo bom —, Monja é Monja e respira: uma, duas, três, inúmeras e sentidas vezes.

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