Em memória de Íris

Garatujas de caneta Bic encaracoladas nas revistas de fofocas. Demi Moore, Vera Fischer, Catherine Deneuve. Todas de olhos riscados com afinco, ao ponto de um rasgo irromper no outro lado da página — o horóscopo e o signo de leão circulado pelo traço trêmulo e azul.
Faz calor o tempo inteiro. Manhã, tarde e noite. E a se o vento canta entre as brechas das janelas empoeiradas, é só uma ideia vaga de que a vida pode ficar melhor, arejada. Mas não fica. Fica nunca.
As roupas comidas por baratas, as francesinhas. Francês é aquela língua que enrola a língua? O vidro de xampu secou, mas guarda porque é bonito, colorido, até dourado tem. E o calor? Bafo, umidade, poeira. Por sobre os lábios pálidos, bolinhas de suor brotam como rosas.
Uma das gotas pinga em uma atriz loira; a água transfigura o rosto da princesa americana. Ela agora está mais pra bruxa. Puxa! Que calor. Não tem ventilador. Ela até pensa em trazer de casa, comprar outro no crediário, consertar o quebrado do traste do Jofre.
Mas Íris não tem, Íris não tem, Íris não tem. E as damas de Hollywood não estão mesmo nem aí pra ela. (Mais um suorzinho pinga na cara pintada.)
Risca, risca, risca o nome Íris até se convencer de que ela existe. Existe? Existe, não. Se existisse, montaria o ventilador e sairia voando janela empoeirada afora, como uma heroína elástica.