Amália Rodrigues

O som dos carros deslizando sobre o asfalto molhado. A cama desfeita, sobre ela, um saco de carne mole — Cassandra.

Um avião decola na pista. Dois aviões decolam na pista. Três aviões decolam na pista. (Os cantos das unhas mordiscados, estalidos de juntas incessantes, ranhuras de bicho sobre a placa de metal branco da máquina de lavar.)

Nunca gostei do Horácio, aqueles membros curtos me afligem.

A cúpula do abajur está trincada. Foi adquirida há exatos cinco anos, quando passeava debaixo do Minhocão. Cheiro de mijo acre e um vapor de morte misturado às baforadas dos numerosos ônibus. Não estava sozinha. Também não está sozinha.

Quando eu era caveira, caveira, caveirinha. Eu era assim. Eu era assim.

Jogou um punhado de orégano no chão para ver se virava pizza. Cruzou as pernas oblongas imitando tesoura. Fungou. Já era quase dez da noite. Ingeriu grãos, água. Estalou os dedos a esmo. Das mãos. Dos pés. Fungou.

A moça da televisão resolveu ter um filho sem anestesia. Ainda por cima chamou o filho de cinco anos para ver o parto. Fez tanta força que fez cocô no lençol.

O dia em que um mendigo coberto por uma manta pútrida avançou contra ela; o Batman. Ela segurava uma criança, mas o primeiro impulso foi de se proteger — o filho não era o dela. Tirou a culpa quando lembrou a lógica das máscaras de oxigênio do avião.

O mendigo não fez nada, nem mesmo buu. Fugiu da rota, cambaleando e cantarolando uma música antiga.

Esses moços, pobres moços, ah, se soubessem o que eu sei.

Chove. O carro passa. O avião traça o céu. O estômago ruge. Cassandra funga e pede uma pizza:

Portuguesa. Capricha no fado, por favor.