O manto
Nasceu com muito sangue escuro. Enfiou o dedo indicador empurrando o absorvente até que ele se acomodasse no canal. Cortou o antebraço com um estilete do estojo de lona azul. O estilete era enferrujado e as lembranças amargas: “Quando Josefa me traiu ela abrigou minha inimiga em seu lar”. Josefa me abraçava com o coração, como podia? (A seu ver eram duas moças, aquela que abraçava com os braços compridos cujos nós amontoavam-se sobre as costas e aquela outra cujo olhar rijo dizia “você não vale uma gota do meu sangue”.) Josefa sorria para minha inimiga e me feria. Um, dois, três dias e o óvulo de desintegrava no tecido do útero. Pontadas no baixo-ventre, minúsculas chinesas patinadoras passeando nos meus músculos, rasgando minhas fibras, machucando tão fundo. Josefa, vai embora. Sai puxada pelo cordão. Uma traição, um não. Josefa, te envolvo com papel higiênico, te jogo no lixo, fedendo. Josefa, onde você vai parar? Te cubro com uma toalha felpuda, branca e limpa. Senta aqui, afasto essas mechas dos teus olhos escusos. Josefa, arqueia esse ombro, levanta o pescoço olha pra