Na antessala
Vovó me observa da cadeira de balanço. Eu sou filha do filho dela. Ela me observa por detrás das lentes grossas de vidro sujo — peles soltas de velha perfumada. Vovó, teu abraço me conforta e me assusta: como pode haver este tipo de pele seca a lembrar uma crosta de elefante? Vovó teus cabelos secos, cinzas e poucos como um punhado de palha, a que o elefante pisa e faz cocô. Uns cocôs imensos, vovó. Como pode sair daquele buraquinho?
— Minha filha, os bumbuns dos elefantes são bem maiores do que os nossos!
Vou contar a breve história de Maria Wilma Figueira Moreira de Castro Souza. Vovó foi uma moça fina e prendada, porém pobre. Ela mesma costurava de próprio punho uns vestidos de organdi, fita grega e linho puro. (Recordo nomes de fazendas e aviamentos pronunciados entre seus dentes amarelos e tortos.) Vovó casada com vovô e vários filhos de cabelos pretos. Todos limpos e vestidos aprumadamente para ir à missa. (Vovó jamais repetia um vestido aos domingos.)
Quando vovô voltava da Companhia de Trem, em seu terno de linho branco e chapéu Panamá, os filhos avistavam o papai de longe e corriam avançando a calçada e o asfalto, ziguezagueando entre os carros e as carroças:
— Papai! Papai! Papai!
Papai ou vovô os abraçava em slow motion. Era bonito de se ver.
Vovó aperta as pálpebras molengas e balança na em sua cadeira posicionada na antessala da morte. Ela entrança os dedos curtos e nodosos de costureira. Sempre nos pede a benção, oferecendo a mão ressequida. Mas o que é benção? É uma maneira de prestigiar uma rainha?
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